Afuá, uma cidade do passado, muito presente...linda, linda, linda

A ida para o Afuá (uma cidade na Ilha do Marajó, no Pará) é mais rápida, via Macapá. É a forma mais rápida de chegar nessa linda cidade do passado (mas, tão presente) situada na parte Ocidental da Ilha do Marajó. De Belém pra lá, soube que são 3 dias de barco.

De Macapá, há saídas diárias da rampa do Santa Inês, em lanchas com viagens de 2 horas, ou de navio - 6 horas para ir e 4 horas para voltar (As passagens custam R$ 45,00, de lancha ou de navio).

Eu fui de lancha, conforme me indicaram. Cabem 150 pessoas numa lancha bastante confortável, além da tripulação. Tem ar condicionado, cadeiras acolchoadas e uma pequena lanchonete na proa.
Existem 2 empresas que fazem esse trajeto. As duas cobram o mesmo preço e cada uma circula num dia da semana.

Parte externa da lancha                                                Parte interna da lancha                                       



O navio é grande...bem grande 

Esse é o rio-mar...sim, é o Rio Amazonas. que banha a cidade de Macapá. 


Depois de 1h30 na lancha a jato, como eles chamam, há uma parada numa comunidade. 


E meia hora depois, é possível avistarmos o Afuá.


Olha a carinha de feliz...
 



É uma cidade em palafitas! E é muito limpa e com a maior parte das casas pintadas. A aparência é de que foram pintadas recentemente. A primeira sensação foi de pessoas tranquilas, andando pelas ruelas feitas de ripas de madeira, chamadas passarelas. Ah, sim, as principais passarelas são de concreto.

Tudo parece bem cuidado....Essa foi a minha primeira impressão ao chegar ao Afuá. Dias e Silva chamam o município de Afuá de Veneza Marajoara. Eles têm toda a razão!

Há bicicletas por toda a parte e... o tempo todo. Todos usam bicicletas: velhos, novos, crianças, famílias. Tem bicicleta pra todos os gostos e jeitos. Tem bicitáxi e tem bicicaminhão...sim...pra tudo se usa a bicicleta.

Sexta-feira a noite- primeiro dia em Afuá

Assim que cheguei deixei minhas coisas no Hotel. Chama-se Hotel Dias, bem em frente ao porto. Já tinha feito reserva. O hotel custa R$80,00, a diária com café da manhã. Aluguei uma bike no próprio hotel (R$10,00/dia) e, de repente, lá estava eu andando naquelas ruelas estreitas cheias de bicicletas por todo os lados.

No início, fiquei um pouco nervosa. Mas nada, estava tudo bem, era só seguir o ritmo. Andei por mais de 1 hora. Em vários momentos vinham bicicletas juntas e rápidas em minha direção, mas tudo se ajeita. Ninguém bate, ninguém fica nervoso!! Foi tão interessante!

Pedalei, pedalei, pedalei, vi que tem mini pracinhas em trapiches, barbearia  em trapiches e madeireira em trapiches, tudo...Tudo em cima das passarelas e dos trapiches!

Todos pedalam rápido, mas ninguém buzina e não vi nenhum acidente. Não sei se existem, mas acho que em algum momento, ocorram. Mas, o que vi foi um respeito mútuo. Parece que há um código implícito que te diz como agir, mesmo se você estiver em passarelas mega estreitas e na beira do rio. Como assim? É verdade, eu vivi.

O tempo todo estamos em cima do rio, ao lado do rio, em frente ao rio...por todo o lado o rio está.

Muitas casas são de madeira, outras são de alvenaria. Casas de 2 andares, casas grandes, casas pequenas. O importante é que na grande maioria das vezes, se vê casas bem feitas e bem arrumadas. E a arquitetura do lugar?!...Nem se fala...




Pessoas e famílias simples fazem esse lugar se tornar ainda mais especial. 

Parece que estamos em um outro lugar do Brasil, numa cidade invisível, como diz Ítalo Calvino. 

Uma pracinha ao lado da passarela...

Foi incrível ver um campo de futebol gigante, de areia, em cima do rio (será?!). Sim e estava tendo um campeonato de futebol sendo narrado pelo microfone em alto e bom som. "O trem estava bom mesmo por lá", eu pensei. "E pela quantidade de bicicleta estacionada uma por cima da outra....bem na beira do campo, tinha meio mundo de gente por lá".

É interessante ver que tem hora que há construções na terra firme, como, por exemplo, o campo de futebol e o cemitério (ao lado do campo). E atravessando a ruela (a passarela), lá está o rio. Sim, o cemitério fica no meio da cidade porque, claro, a cidade cresceu e o cemitério nada mais é do que o vizinho ao lado.

Há inúmeros pequenos mercados que vendem de tudo um pouco: bebidas, cano, motor de barco, pão, rosca, caderno, cola, tudo...e farinha...sempre, a farinha. Ela não falta! Em todos os mercados vi sacos de 30 Kg de farinha sendo vendidos. Uma farinha grossa, bem grossa. Mas, sim, sempre farinha! Vi também em um dos mercados, celas à venda. Percebi que eram celas de búfalos...sim, o Marajó é conhecido por suas criações de búfalos. E, claro, muito açaí sendo vendido. No paneiro na rua e muitas batedeiras de açaí espalhadas pela cidade. É um lugar do açaí também.

Marajó, a maior ilha fluvial do mundo, também é a nossa Veneza...que interessante!

Segundo dia...

No café da manhã do hotel, perguntei se havia um lugar onde eles "banhavam no rio" ou se tinha um igarapé bom para banho. A resposta foi que eles banham no rio em frente à quadra onde ia ter até um forró à noite. Mas, também me contaram que tem a D. Domingas, do outro lado do rio. Rapidamente, me interessei por esse. A moça do hotel enviou uma mensagem por whatts app e pediu que me buscassem às 11h, conforme sugeri. 
Peguei a bike e fui rodar pela cidade por caminhos e passarelas...quanto mais se anda pelas passarelas, há outras para se andar...


Uma das grandes escolas que vi...


As passarelas de madeira...



Uma pracinha na esquina...


Afuá é muito conhecido por ser a terra do camarão. Há um grande festival do Camarão no mês de julho.

As Secretarias de Meio Ambiente e de Agricultura não estão lá muito bem cuidadas...


Às 11h em ponto, lá estava eu, pronta para esperar a voadeira. Mas, claro que ela não estava lá no horário marcado. Só chegou às 11h55. E sempre ouvi falar que lugar de rio na Amazônia é assim mesmo: o barco atrasa. "Sempre atrasa um pouquinho", eles costumam dizer. Qualquer barco atrasa. É assim que funciona! E você não vê stress por isso. É assim mesmo!

E lá fomos nós para a D. Domingas. 
Abaixo as fotos da viagem de voadeira...


Entrei na voadeira e partimos, mas logo à frente, o barqueiro parou para embarcar umas compras e algumas pessoas. Mas, não avisou. Também é assim mesmo...eles podem parar quantas vezes quiserem...não te avisarão, pedirão, ou apenas informarão. É assim que funciona: se precisarem parar, vão parar e você espera. E ninguém se estressa...tão bom!



Foi uma viagem tão rápida que fiquei boba...acho que levamos 5 a 10 min. Era ali, bem do outro lado do rio. Num furo (denominação dada aos canais no meio das ilhas fluviais na Amazônia) bem em frente à cidade. No início fiquei um pouco triste. Queria ir a um igarapé e não queria tomar banho naquele rio. É muito grande, poluído, ou sei lá o que...tenho receio. Mas, o lugar é tão confortável e acolhedor que logo a tristeza passou. Fiz daquela tarde, uma delícia de tempo para curtir e ler. Como não tinha levado o livro que estou lendo no momento (Cem anos de solidão), resolvi começar a ler o livro da Michele Obama que tinha salvo no celular. Comecei a ler logo após almoçar um delicioso prato de comida com peixe, claro! Aqui só como peixe...sim, todos os dias! 
A comida estava muito gostosa. 
Em seguida, deitei numa rede e fiquei lendo. Foi uma tarde muito agradável. O lugar é tranquilo e bonito. Ótimo para descansar.




 


Um moça que foi no barco com a gente me perguntou se eu era professora. Ela disse que eu tinha cara de professora. Eu respondi que sim. Ela se levantou e me perguntou se eu poderia ajudá-la com um trabalho que ela tinha que entregar em sua faculdade. Claro que ajudei. Ela precisava interpretar e fazer uma redação de 10 a 15 linhas sobre duas frases extraídas do livro de Caio Prado Junior sobre a História do Brasil. Ela cursa serviço social numa das faculdades à distância. Depois de ajudá-la, voltei à leitura e ainda mais contente por tê-la ajudado.

Olha que lugar bonito...

Fiquei na D. Domingas até o entardecer quando os donos do lugar retornaram pra cidade. E vi o pôr do sol, enquanto retornava à cidade.

Cheguei me sentindo tão cansada. Não sei se foi devido ao calor. Aqui é bem quente...apesar da brisa, é bem quente. Cheguei, tomei um banho e deitei, antes de ir pro forró na quadra. Assim que deitei, ouvi o barulho de chuva. Choveu muito!!!! Fiquei preocupada com o pessoal na quadra, mas depois de uns 20 minutos, a chuva cessou. Era a hora de partir para o forró!

A quadra estava lotada, os radialistas da rádio local fazendo o cerimonial do evento e quadrilhas se apresentando, uma após a outra. 
Essa é uma criança de 6 anos que estava concorrendo, uma das Miss Caipira 2019.

Todas as escolas das 20 regionais do município se apresentaram. Sim, acho que todas as turmas de cada escola se apresentaram. E ainda teve a escolha da Miss Caipira 2019. Eu fiquei pasma.... É uma alta produção com direito a coreógrafo e estilista para cada menina (13, 14 anos)! Estamos falando de um município formado por pessoas muito simples e de baixo poder aquisitivo. Mas, as manifestações culturais estão mantidas. É isso que importa!








Ah, e também teve a quadrilha da idade ativa. Funcionou assim: as damas eram da idade ativa e os cavalheiros eram meninos, bem jovens. 

Saí do forró por volta de 22h30, mas soube no dia seguinte que a festa seguiu até as 5h da manhã...

É uma festa linda com gente de todas as comunidades, muitas comidas típicas, todos tranquilos, conversando, rindo e se encontrando numa boa. Não se ouve falar em violência...e a cidade estava muito cheia. Dizem que maior que essa festa, só o festival do Camarão. O Festival do Camarão acontecerá no último fim de semana de julho. No Festival dizem que a cidade fica completamente lotada!

No dia seguinte rodei mais um pouco na cidade de bicicleta para conhecer novas localidades. 



 



 Acho que esse lugar tem um forte influência holandesa...fiquei muito intrigada com os telhados. 


 Aqui a Praça Michaela que hoje estava vazia logo após o almoço...afinal de contas, é domingo, 14h. Não tinha muita gente circulando.


As escolas são como essa da imagem abaixo. Todas muito bem cuidadas.

 Abaixo,  a pista do aeroporto e ao fundo, o Estádio de futebol e o campo de terra.


Almocei no aeroporto. A comida foi a mesma nas 3 refeições que fiz na cidade: feijão, arroz, farofa, salada de maionese e peixe frito. Comi em 3 lugares diferentes, mas a refeição foi idêntica...o preço também: R$ 25,00/ a porção de peixe com esses acompanhamentos para 1 pessoa.


E adorei as mini casas. Vi várias casinhas que pareciam as casinhas de boneca do meu tempo de criança. 





E adorei os mercados no rio...






O Afuá é belo! Adorei Afuá!

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